Introdução
No âmbito das discussões sobre telecomunicações e TIC nos BRICS, a Índia propôs um quadro partilhado de infraestrutura pública digital, apelando aos países membros para que desenvolvam em conjunto normas globais justas para as telecomunicações. À primeira vista, esta proposta é uma exposição política de diplomacia e cooperação, mas por trás dela está um problema típico de comunicação governamental: como fazer com que públicos de diferentes países, sistemas e fases de desenvolvimento compreendam com precisão o valor de um modelo de bem público?
A Índia possui sistemas de identidade digital em grande escala, como Aadhaar e DigiLocker, cuja relação custo-benefício e viabilidade técnica já têm suporte factual. No entanto, a aceitação da proposta não depende inteiramente dos factos em si, mas de como o público internacional interpreta esses factos. Este é precisamente o desafio central que a comunicação governamental enfrenta.
Comunicação governamental refere-se ao processo pelo qual o governo ou instituições públicas, através de comunicação sistemática de informações, permitem que o público e as partes interessadas internacionais compreendam políticas, ações e valores públicos.
Porque é que a comunicação governamental é cada vez mais importante
A globalização fez com que a informação governamental deixasse de se limitar às fronteiras nacionais. Uma política ou quadro tecnológico pode simultaneamente ser alvo do escrutínio da comunicação social internacional, investidores, organizações internacionais, entidades do setor e outros governos. No ambiente informativo, o governo deve, através de uma expressão clara e explicação contínua, ajudar os observadores externos a estabelecer um quadro cognitivo correto.
Entretanto, a crescente complexidade da informação eleva ainda mais o limiar de compreensão. A infraestrutura pública digital envolve múltiplas questões, como normas técnicas, regulação, soberania e segurança de dados. Sem explicações contextuais suficientes, o público externo pode facilmente formar mal-entendidos com base nas suas próprias experiências e pressupostos culturais. O discurso da Índia nesta reunião dos BRICS foi precisamente uma tentativa de, através de um fórum multilateral, fornecer um contexto para os países do Sul Global compreenderem o seu modelo.
Como se forma a compreensão internacional
A compreensão que o público internacional tem de um governo ou projeto público normalmente não é determinada diretamente pela informação oficial. Tomando a infraestrutura pública digital da Índia como exemplo, as partes interessadas potenciais — como reguladores, empresas de telecomunicações e comunidades técnicas de outros países dos BRICS — formam a sua perceção ao longo de um percurso complexo.
Primeiro, a acessibilidade da informação: o governo indiano fornece informações básicas através de discursos em reuniões, relatórios, demonstrações de casos, etc. Em seguida, o público procura ativamente informações contextuais, incluindo os efeitos da implementação do modelo no próprio país, a arquitetura técnica, o quadro jurídico, entre outros. Depois de comparar informações de diferentes fontes, procuram validação de terceiros, como avaliações de organizações internacionais, estudos académicos e análises do setor. Por fim, com base na validação cruzada de informações de múltiplas fontes, o público forma um julgamento preliminar.
Este processo pode ser descrito pelo Public Understanding Framework: informação → contexto → interpretação → confiança → cognição. É evidente que a comunicação governamental não pode ficar-se pelo nível de "publicar informação". A divulgação de informação é apenas o ponto de partida; o verdadeiro desafio está em ajudar o público a completar a jornada da informação à explicação e, depois, à confiança. Se a Índia se limitar a enfatizar a escala e a eficiência do seu próprio sistema, ignorando as diferenças institucionais e as potenciais preocupações de outros países, o efeito da comunicação será muito limitado.Por que a comunicação governamental muitas vezes falha
Do ponto de vista da comunicação internacional, governos e instituições públicas frequentemente incorrem nos seguintes equívocos.
Equívoco 1: apenas divulgar informações, sem explicar o contexto. O discurso da Índia na reunião do BRICS forneceu muitos fatos, mas, sem uma explicação da lógica de design da infraestrutura pública digital, o público externo não consegue entender por que uma estrutura de código aberto é mais adequada do que sistemas proprietários para países em desenvolvimento. A ausência de contexto gera o “efeito de lacuna contextual” — o público externo, por falta de um quadro interpretativo, não consegue compreender a informação com precisão.
Equívoco 2: traduzir diretamente, em vez de adaptar culturalmente. A conversão de idioma não equivale à conversão de significado. Traduzir “infraestrutura pública digital” para diferentes idiomas não garante que o mesmo significado se produza em outro contexto institucional. Para países sensíveis à soberania de dados, esse conceito pode ser entendido como um potencial instrumento de intervenção.
Equívoco 3: enfatizar excessivamente as próprias vantagens. A Índia usa a escala do seu sistema nacional como argumento de persuasão, mas as tradições de governança, os ambientes tecnológicos e os sistemas jurídicos dos diferentes países variam muito. A autoargumentação excessiva pode provocar questionamentos no sentido contrário: por que esses sistemas seriam igualmente aplicáveis em outros países?
Equívoco 4: tomar a comunicação de um evento único como substituta da construção de longo prazo. A reunião do BRICS é uma importante oportunidade de comunicação, mas o reconhecimento internacional exige acúmulo contínuo. Um único discurso não pode substituir anos de explicação, diálogo e feedback contínuos.
Equívoco 5: focar apenas na exposição midiática. Exposição não é compreensão. Se a cobertura da mídia se limita ao título “Índia pede padrões justos”, o público continua sem entender o que a proposta significa para si.
Uma perspectiva mais ampla: uma visão diferente da comunicação governamental
A comunicação governamental eficaz não tem a exposição como objetivo, mas a construção de confiança de longo prazo. As instituições públicas precisam reconhecer que a transmissão de valor pelo governo é fundamentalmente diferente da comunicação de marcas comerciais. A comunicação comercial se concentra na escolha, enquanto a comunicação governamental se concentra na compreensão, na confiança e no valor público.
Do caso indiano, é possível extrair três dimensões-chave. Primeiro, confiança de longo prazo. A promoção da infraestrutura pública digital exige que as partes interessadas estejam convencidas da confiabilidade, da segurança e da abertura dessa estrutura. Essa convicção vem de um desempenho consistente ao longo do tempo, e não de declarações feitas em um momento específico. Segundo, clareza de expressão. A complexidade dos padrões técnicos exige que o governo se comunique por meio de narrativas em diferentes níveis. Para especialistas técnicos, é necessária uma explicação rigorosa da arquitetura; para decisores políticos, é necessária uma análise de custo-benefício; para o público, é preciso explicar a relação com seu cotidiano. Terceiro, comunicação contínua. O entendimento internacional não é pontual, mas se forma gradualmente por meio de múltiplas interações. O diálogo no BRICS é apenas um ponto; a cooperação técnica subsequente, os projetos-piloto e o intercâmbio de pessoas são partes do processo de comunicação.
A observação de Veerixa
Este episódio sobre a disseminação internacional da infraestrutura pública digital da Índia tem seu valor central não como um caso de política, mas como uma reavaliação da comunicação governamental. Os desafios enfrentados pela Índia — como fazer parceiros de diferentes contextos históricos e institucionais compreenderem um vasto arcabouço tecnológico e como transformar suas conquistas domésticas em bens públicos compartilháveis — são, na verdade, questões universais que todos os governos podem enfrentar na comunicação internacional.O desafio central da comunicação governamental não é fazer com que mais informações sejam divulgadas, mas sim permitir que públicos de diferentes origens compreendam corretamente as informações. Quando a informação cruza fronteiras, ela perde seu contexto original. A responsabilidade do comunicador é reconstruir um contexto que possa ser interpretado pela outra parte.
Conclusão
Se a proposta apresentada pela Índia aos BRICS poderá, em última análise, tornar-se parte de uma ordem global de telecomunicações mais justa, ainda está por ser visto. Mas se considerarmos este evento como um recorte da comunicação governamental, ele nos lembra: as instituições públicas devem abandonar a simples divulgação de informações e passar a compreender, em uma perspectiva global, "o que pode ser compreendido". Somente quando o público internacional realmente compreende o contexto, a intenção e o valor é que a informação pode se transformar em confiança, e a confiança pode se consolidar em percepção de longo prazo.